quinta-feira, 30 de setembro de 2010

JONATHAN FRANZEN POP

Na imagem: Michael Chabon, Jonathan Franzen, Tom Wolfe e Gore Vidal nos Simpsons.

Depois da famigerada capa da Time, Jonathan Franzen continua sendo um dos assuntos mais comentados no mundo literário anglo-saxônico. Há uma série de razões para o falatório: Oprah Winfrey selecionou o livro para o seu famoso book club; na semana passada "Freedom" foi publicado na Inglaterra com direito a entrevista do autor para o Guardian e resenha do livro no Telegraph - aliás, achei a capa da edição inglesa bem mais bonita; por uma ou duas semanas "Freedom" chegou a desbancar o fenômeno Stieg Larsson na lista de e-books mais vendidos do Kindle na categoria ficção; etc.

Tamanha repercussão não podia deixar de ser acompanhada por brincadeiras e ironias. Achei bem interessante a paródia feita pelos editores da revista The Stranger em conjunto com o escritor Tao Lin. Eles fizeram uma perfeita reprodução da Time, começando pela capa com a mesma borda vermelha, o mesmo ângulo para a foto do escritor e a mesma chamada: "O maior romancista americano", nesse caso Tao Lin. O artigo escrito por Tao Lin falando dele mesmo continua com a mesma ideia reproduzindo linha por linha o texto escrito pelo jornalista Lev Grossman para a Time, mas invertendo seus sentidos.

O assunto também virou uma série de quadrinhos chamada "Imperador Franzen", fazendo referência a série Star Wars, tendo Franzen no papel do temido vilão Darth Vader e colocando os escritores Jonathan Sanfran Foer e Gary Shteyngart na ação. Se não me engano existe até um perfil no twitter com o nome de "emperor franzen".

Me parece que essas movimentações não visam um ataque direto a Jonathan Franzen e a qualidade de sua obra. Pelo contrário, Franzen é mesmo uma unanimidade nesse quesito. Todas essas críticas, na verdade, acompanham o período de transição pelo qual passa a literatura norte-americana. Os novos escritores não são americanos no sentido estreito do termo, alguns nasceram fora dos Estados Unidos, tem formação multicultural, visão de mundo diferente: há negros, orientais, latinos e muitas mulheres. A bronca dos americanos é justamente não ter na sua grande mídia mais espaço e variedade capaz de abarcar todas essas diferenças.

*imagem: reprodução.
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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

6 ROMANCES DE TRANSFORMAÇÃO

Histórias de metamorfose existem desde os tempos mais antigos e estão presentes, de alguma maneira, nos livros sobre vampiros, zumbis, lobisomens e mutantes que fazem tanto sucesso. Indo mais além descobrimos que todo mundo algum dia já sonhou com a possibilidade de transformar-se em outros e ter poderes sobrenaturais. Porém, a metamorfose pode tornar uma pessoa melhor do que ela é; ou pode transformá-la em algo ainda pior, num caminho de degradação sem retorno. Seis romances sobre metamorfose...

Contos de fadas
de Perrault, Grimm, Andersen e outros
Zahar

Os contos de fadas são a matriz de muitas histórias de transformação e fazem parte do nosso imaginário coletivo. Nesse universo rainhas viram bruxas, feras viram príncipes e moças pobres viram princesas. Quando tudo parece perdido a transformação é capaz de salvar a todos e conduzir todas as coisas para um final feliz. O charme dessa edição são os texto integrais, as belas ilustrações das histórias, a biografia dos autores e o texto de apresentação escrito por Ana Maria Machado.

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O médico e o monstro
Robert Louis Stevenson
L&PM

Outro romance clássico que tem a metamorfose como tema principal. Escrito em 1886, o livro conta uma história de mistério e terror mostrando o lado bom e o lado mau de um mesmo homem. O doutor Henry Jekyll adquire uma estranha personalidade depois de servir como cobaia num de seus experimentos. Assim um violento rapaz conhecido como Mr. Hide aparece na cidade de Londres. O segredo do doutor Jekyll fica ameaçado quando assassinatos começam a acontecer.

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A metamorfose
Franz Kafka
Companhia das Letras

“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”. Assim começa uma das novelas de transformação mais famosas da literatura mundial. Kafka promove nos leitores um estranhamento constante: somos capazes de reconhecer todos os elementos que fazem parte do universo de Gregor Samsa, mas as situações parecem sempre absurdas e fora de lugar. A metamorfose do caixeiro-viajante não o salva, mas serve para demonstrar o lado cruel da condição humana.

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O visconde partido ao meio
Italo Calvino
Companhia das Letras

As transformações parecem habitar muitos livros escritos por Italo Calvino. Nessa novela o recurso serve como alegoria para demonstrar os tormentos do homem moderno dividido entre o bem e o mal. O visconde Medardo di Terralba é dividido em duas metades depois de ser atingido por uma bala de canhão. Cada uma das metades conseguem viver independente sendo que uma pratica o bem e a outra o mal. O incidente causa enorme confusão no vilarejo onde mora o visconde.

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O curioso caso de Benjamin Button e outras histórias da Era do Jazz
F. Scott Fitzgerald
José Olympio

A história do menino que nasce velho e morre bebê ganhou notoriedade depois de ser adaptada para o cinema. O conto de Fitzgerald faz uma brincadeira com o tempo que corre ao contrário para Benjamin Button. É no amor que está o maior drama: a garota se apaixona pelo velho rapaz e somente por um instante os dois terão a mesma idade e poderão olhar um ao outro como iguais.

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O reino deste mundo
Alejo Carpentier
Martins Editora

A história da independência haitiana serve como pano de fundo para esse romance escrito pelo cubano Alejo Carpentier. O guerreiro Mackandal é a personagem lendária que usa a metamorfose para tentar conduzir seu povo a independência. A dominação dos senhores brancos sofre todo tipo de ataque graças ao poder de Mackandal de transformar-se em insetos, aves, peixes e outros animais. Alguns atribuem a esse livro o nascimento do realismo mágico.

*imagens: divulgação.

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domingo, 26 de setembro de 2010

LIVROS QUE AJUDAM CLÁSSICOS DA MÚSICA

Depois de ver esse post relacionando O arco-íris da gravidade, de Thomas Pynchon com o disco Amnesiac do Radiohead e Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño com o disco In Casino Out da banda At the Drive-In fiquei com vontade de fazer algo parecido. Mas procurando ideias na internet encontrei na Raquel Cozer um blog com tudo pronto - Classics Rock!

O blog já existe desde 2008. Tem uma lista enorme de livros e autores que serviram de inspiração para bandas e músicos comporem suas canções. Numa pesquisa rápido encontrei 1984, de George Orwell com Diamond Dogs do David Bowie; Lolita, de Vladimir Nabokov com Police; O senhor dos anéis, de JRR Tolkien com II do Led Zeppelin; etc. Impressiona também a quantidade de bandas que se inspirou em O apanhador no campo de centeio, de J.D. Salinger e Ulisses, de James Joyce.

Será que tem um desses com livros brasileiros, né?

*Imagem: reprodução do google images.

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sábado, 25 de setembro de 2010

JAVIER MARIAS E OS ROMANCES LONGOS

A Companhia das Letras está lançando o terceiro e último volume do romance Seu rosto amanhã - veneno, sombra e adeus, de Javier Marias, um escritor espanhol da maior importância. W.G. Sebald, J.M. Coetzee, Roberto Bolaño, Salman Rushdie e Ricardo Piglia estão entre os seus maiores admiradores. Porém, como bem aponta a resenha de Jonas Lopes para a Bravo!, Marias é um sucesso mundial pouco lido e pouco comentado no Brasil.

Aproveito para fazer um "mea culpa": tomei conhecimento dele dois anos atrás por meio de resenhas, mas até hoje ainda não li nenhum de seus livros. Juro que Coração tão branco esta na minha fila de próximas leituras.

Javier Marias já foi traduzido para muitos idiomas e ganhou inúmeros prêmios. É tido como um dos mais importantes escritores vivos da literatura espanhola. Seu sucesso vem da grande qualidade narrativa de seus livros.

Reproduzo aqui um trecho da resenha de Jonas Lopes sobre o método narrativo do escritor. O método é constituído de inúmeras digressões, frases muito longas, contração/expansão do tempo e parece a peça fundamental para entender a sedução que o romance exerce sobre nós, os leitores: "A magia de ler Marías (...) está na capacidade de promover digressões, no turbilhão inescapável de idéias. (...) Até onde contar - falar, relatar, narrar, sobretudo confiar - pode ser arriscado? Ao contarmos o que quer que seja, arriscamo-nos à traição. Perdemos o controle sobre nossas vidas, de certo modo, abandonando na mão de outro - um amigo, um amor, o leitor do livro - uma responsabilidade essencial".

De maneira bem resumida, Seu rosto amanhã conta a história de um ex-professor de Oxford que tem o dom de prever o que vai acontecer com uma pessoa observando o rosto dela. Ele acaba sendo recrutado por grupos de espiões para descobrir traídores em potencial. Ao longo dos três volumes essa história vai se modificando um pouco.

Gostei de saber uma história bastante curiosa sobre esse livro. O romance foi dividido em três volumes porque o autor não gosta de livros muito longos - reunindo os três volumes o romance fica com aproximadamente 1400 páginas. É um enorme catatau, sem dúvida.

Mas aqui cabe uma digressão da minha parte: pelo que ando lendo em diversos lugares (veja aqui), os romances mais longos estão de fato na moda. Quer exemplos? Para citar os nossos contemporâneos: As correções, do aclamado Jonathan Franzen tem 584 páginas e parece que Freedom não fica atrás; Do Roberto Bolaño, 2666 tem 856 páginas e Os detetives selvagens tem 624 páginas; Do Thomas Pynchon, Mason & Dixon tem 846 páginas e O arco-íris da gravidade tem 786 páginas; Submundo, de Don Dellilo tem 736 páginas. Apenas por curiosidade, alguns antigos e outros nem tanto: Ulisses, de James Joyce tem 912 páginas; Moby Dick, de Herman Melville tem 656 páginas; Grandes esperanças, de Charles Dickes tem 536 páginas; Anna Karienina, de Tolstói tem 816 páginas. Isso porque nem mencinei Dostoievski, Günter Grass, Haruki Murakami, Thomas Mann e Marcel Proust - Em busca do tempo perdido tem 7 volumes.

Tudo isso parece um contracenso se pensarmos que estamos em plena era do twitter e seus famigerados 140 caracteres. A tendência ainda nega a tão falada superficialidade de informações no mundo contemporâneo. Não é qualquer escritor que tem fôlego para manter romances tão longos e dentre os citados, todos fazem parte de um cânone moderno/pós-moderno. Também não se engane pensando que você nunca vai encontrar gente de gerações mais novas com um desses longos romances nas mãos. Muitos desses escritores são bastante comentados na internet.

O capricho, vou chamar assim, de Javier Marias se explica pelo seu gosto por livros não tão longos. Porém, os editores já podem avisar Marias que ele não deve ter nada mais a temer.

*imagem: divulgação.

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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

NOTAS #1

Joseph Conrad em Graphic Novel
A editora inglesa Self Made Hero está lançando uma graphic novel para Coração das trevas (imagem), de Joseph Conrad, ilustrado com desenhos feitos à lapis pela artista queniana Catherine Anyango. O texto foi adaptado por David Zane Mairowitz. Considerado a obra-prima de Conrad, esse romance narra a viagem de Marlowe pelas selvas africanas em busca de um comprador de marfim chamado Kurtz. A graphic novel ainda inclui trechos do diário do congo escrito por Joseph Conrad.

Criador e criatura
Em 1975, William Burroughs não só assistiu a um show do Led Zeppelin como também entrevistou Jimmy Page e escreveu um longo artigo sobre tudo o que viu. Aliás, muita gente atribui a Burroughs a invenção da palavra 'heavy metal' que teria aparecido pela primeira vez em seu romance, Almoço nu. O artigo entitulado "Rock Magic: Jimmy Page, Led Zeppelin, And a search for the elusive Stairway to Heaven" foi publicado numa revista underground, chamada Crawdaddy e reapareceu na internet. Embora tenha gostado do show, Burroughs ficou imensamente preocupado com os riscos de que algum acidente pudesse acontecer a qualquer momento. O artigo pode ser lido na integra em http://bit.ly/55ElJh

Troca de colunistas
A escritora Zadie Smith vai assinar a coluna "New Books" da revista americana Harper's. Ela vai ocupar o lugar de Benjamin Moser que continuará contribuindo com a revista. Além de ser uma escritora reconhecida internacionalmente, Smith já demonstrou seu poder crítico escrevendo ensaios de fôlego para revistas como The New York Review of Books, por exemplo. A primeira coluna assinada por ela deve ser publicada em Março do ano que vem.

Cartas de Oscar Wilde
Uma coleção de cartas escritas por Oscar Wilde vão a leilão na Inglaterra em 24 de Setembro próximo. A descoberta dessa correspondência está causando interesse em muita gente por causa de seu conteúdo. São cartas de Wilde endereçadas com bastante afeto a Alsager Vian, seu colega e editor da Society Magazines em 1887. As cartas foram escritas anos antes de Oscar Wilde ter sido condenado por atentado violento ao pudor e ter sido submetido a dois anos de trabalhos forçados.

A intimidade de Roland Barthes
O diário escrito por Roland Barthes em 1977, logo após a morte de sua mãe, será publicado pela editora Hill and Wang. Mourning diary conta com 330 anotações que mostram as reflexões subjetivas e o estado de tristeza em que o grande semiótico da cultura francesa se encontrava naquele momento. A revista New Yorker divulgou algumas imagens do diário em http://nyr.kr/ds6HZW

Uma tarefa nada fácil
O arco-íris da gravidade, cultuado romance de Thomas Pynchon, foi ilustrado pelo artista plástico Zak Smith. Usando muitas pinturas e fotos experimentais, ele conta que tentou traduzir literalmente os trechos do livro em imagens página por página. O resultado final do trabalho foi exposto no Whitney Museum em Nova York e faz parte do acervo permanente do Walker Art Center na cidade americana de Minneapolis. As ilustrações também estão disponíveis na internet em http://bit.ly/L1m9F

Paris Review na era da internet
O editor Lorin Stein está cumprindo a sua promessa de renovar a revista Paris Review. A edição de outono é o primeiro número sob seu comando e está recheada de ares franceses: Michel Houellebecq é um dos entrevistados e Lydia Davis escreveu um artigo sobre Flaubert. De olho na internet Stein também reformulou inteiramente o site da revista. Além do novo visual, o site conta com um blog diário e grande parte do conteúdo impresso está disponível - incluindo, por exemplo, a entrevista de E. M. Foster para a edição nº 1.

*Imagem: reprodução.
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terça-feira, 21 de setembro de 2010

SOBRE AS PERGUNTAS...

Estou encerrando hoje a série de perguntas com os 20 escritores que compõe a lista que organizei no começo de Agosto. A série deveria terminar na próxima quinta-feira, mas infelizmente não consegui retorno de quatro escritores. Uma pena! As pequenas entrevistas ficam incompletas, mas caso eu receba alguma retorno nesse meio tempo aviso vocês.

Valeu a atenção e a participação de todo mundo.
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segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A PALAVRA NA CARNE: TATUAGEM LITERÁRIA

Tenho visto circular bastante notícia em torno de tatuagens com temas vindos da literatura. Mas acho que esse negócio não é tão novo quanto a gente pensa. De qualquer forma, o pessoal do The Word Made Flesh organizou até um livro chamado The Word Made Flesh: Literary Tattoos com diversas fotos de pessoas que tem tatuagens do tipo.

A ideia foi simples: colocaram um post no blog pedindo as pessoas que enviassem fotos de suas próprias tatuagens. Em menos de três horas já começaram a receber um monte de contribuições. Os selecionados ganharam o direito de participar do livro - no total foram selecionadas 150 fotos. Cada foto vem acompanhada de pequenos textos que contam o motivo que levou a pessoa da foto a escolher aquele texto e o que ele diz sobre essa pessoa.

Tudo isso me lembrou a coleção Penguin Ink, da editora Penguin. De tão bonito, chega a dar vontade de tatuar, né? Abaixo o trailer do projeto:




*imagem: reprodução.
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domingo, 19 de setembro de 2010

DAVID FOSTER WALLACE


Tristan Tzara termina sua receita para um poema dadaísta com a seguinte frase: "E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público". Subvertendo alguns dos seus sentidos, a frase se encaixa muito bem com a obra do escritor americano David Foster Wallace. Seus livros são altamente originais e recheados de momentos sensíveis, mas são imcompreendidos graças ao forte caráter experimental*.

Sucesso de crítica, David Foster Wallace era tido como um promessa para a literatura do século XXI. Infelizmente ele cometeu suicídio em 2008 depois de um período longo de depressão profunda. Deixou uma obra composta por romances monumentais, livros de contos e artigos escritos para jornais e revista americanas. Infinite Jest, publicado em 1996, chegou a ser comparado ao Ulisses, de James Joyce. No Brasil, Breves entrevistas com homens hediondos foi seu único livro publicado.

Ao que parece, Foster Wallace tinha certa preocupação em dar continuidade a tradição de ficcionistas americanos que o precediam. Leitor de Thomas Pynchon e Don Delillo, ele tentava arranjar uma maneira de soar original e encontrar uma voz própria. A tarefa era difícil, esses autores transformaram radicalmente a ficção americana e a levaram a lugares nunca antes visitados. A saída encontrada por Foster Wallace foi descontruir a linguagem e atacar a estrutura da narrativa.

Isso explica porque sua ficção é repleta de lacunas, espaços em branco, palavras inventadas, frases bem longas, pontuação irregular, muitas intervenções, fórmulas matemáticas, diálogos imensos, etc. A metalinguagem e as enormes notas de rodapé também são marcas de seu estilo. Os temas giram em torno da classe média americana, mas de uma maneira mais sarcáticas e cheia de humor negro. Suas personagens sempre sofrem de algum tipo de psicose ou vivem as voltas com certas obsessões. Elas são capazes de falar por páginas e mais páginas sobre um mesmo assunto. Sexo, drogas e pervesão aparecem a todo o momento.

Porém, também existe espaço para a beleza, a alegria e o humor. As situações insólitas das histórias causam gargalhadas. Muitos críticos chegam a dizer que Foster Wallace tomou emprestado a classe média de Updike e a levou para o lado obscuro, ironico e sarcástico da vida. Atrás do caos aparente existe a sensibilidade de um escritor que está nos mostrando aos mesmo tempo a força e a fraqueza humana.

O experimentalismo em excesso às vezes pode afastar o leitor menos desavisado. De fato, em certos momentos o enredo parece não sair do lugar ou o assunto fica por demais árido - como é o caso de Datum centurio e Adult World (II), ambos de Breve entrevistas com homens hediondos.

Essa semana duas notícias devem colocar o nome de Foster Wallace em evidência novamente: o arquivo do escritor que está sob os cuidados do Harry Ransom Center, Universidade do Texas foi aberto ao público; e Pale King, um romance inacabado, terá publicação no ano que vem. Alguns trechos desse romance foram publicados na revista New Yorker: Good people, Wiggle room e All that.

Tomara que novas traduções de Foster Wallace apareçam no Brasil. Tive notícia de que dois livros de não ficção devem estar a caminho.

* Me refiro as modificações radicais da linguagem e das estruturas narrativas. Também quero deixar claro que não estou exaltando o "experimentalismo" em detrimento de outros modos de expressão.

**imagem: reprodução da NY Mag.

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O GOSTO LITERÁRIO DOS PRESIDENCIÁVEIS

Não achei nada mau o artigo do caderno Prosa & Verso sobre os livros favoritos dos nossos principais candidatos à Presidência da República. Acho o assunto pouco comentado, merecia maior atenção por parte da imprensa especialidade. Imagine um longo perfil dos nossos candidatos baseado em seus hábitos de leitura? Alguém poderia flagrar cada um deles indo a livraria, lendo um livro num momento de descanso ou qualquer coisa do gênero.

Os candidatos também tem uma grande exposição durante esse período de campanha política. O fato de aparecerem com algum livro poderia, de uma maneira tímida, aguçar a curiosidade dos eleitores em torno daquele objeto. Mais ou menos como aconteceu com Barack Obama: em 2008 ele recomendou amplamente a leitura de Terras baixas, de Joseph O'Neill; esse ano causou certo frisson ao sair de uma livraria carregando Freedom, de Jonathan Franzen.

Segundo o artigo do jornal, nossos presidenciáveis preferiram citar apenas os clássicos. Ao contrário de Obama, nenhum deles mencionou algum escritor 'novo' ou ainda vivo - com exceção de Dilma Rousseff que está lendo "El hombre que amaba los perros”, de Leonardo Padura Fuentes. Marina Silva foi a única que não citou nenhum escritor de ficção, falou mais dos grandes acadêmicos que compõe a sua biblioteca.

Os campeões na preferência dos candidatos são Fiódor Dostoiévski e Guimarães Rosa. Ambos foram citados por três dos quatro candidatos. Achei curioso as particularidades: Dilma falou de Proust e seu "Em busca do tempo perdido"; Serra falou de Nelson Rodrigues e Machado de Assis - praticamente leu toda a obra inteira; e Plínio disse que gosta de F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway e Gabriel García Márquez.

*As caricaturas são do Estadão.com.br

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sexta-feira, 17 de setembro de 2010

VERÔNICA STIGGER


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Quando ainda não sabia ler, ouvia LPs coloridos que contavam historinhas. Creio que, antes de qualquer livro, a historinha que mais teve impacto sobre mim foi A formiguinha e a neve. A formiguinha estava com o pé preso na neve e ela rogava ao sol: “Ó, sol, tu que és tão forte, derrete a neve que prende o meu pezinho”. E o sol respondia: “Mais forte do que eu é o muro que me tapa”. A formiguinha então pedia ajuda ao muro: “Ó, muro, tu que és tão forte, que tapa o sol, que derrete a neve, desprende o meu pezinho”. E o muro dizia que o rato era mais forte que ele porque o roía. Assim a formiguinha prosseguia pedindo ajuda àqueles que eram considerados os mais fortes e todos se recusavam a ajudá-la. Eu adorava a estrutura repetitiva da história e, ao mesmo tempo, ficava muito aflita com o drama da formiguinha. Engraçado que nunca me interessou o final redentor, em que Deus a salva, mas, sim, as reiteradas súplicas da formiguinha. Aliás, até responder a esta sua pergunta, tinha me esquecido completamente do final da história, só me lembrava da angústia da formiguinha. Foi o Google (já que não tenho mais os discos) que me ajudou a relembrá-la. Acrescento apenas que acho que algo dessa estrutura repetitiva aparece em meus primeiros contos, sobretudo do primeiro livro, O trágico e outras comédias.

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritora?
Sim. Na verdade, talvez nunca tenha considerado a hipótese de ser escritora.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
Creio que é sempre possível inventar novas formas de contar velhas histórias. Esse é, aliás, o grande desafio do escritor.

No que você está trabalhando agora?
Estou trabalhando em dois livros. Um deles será um livro de contos e se chamará Sul. Será composto de três textos mais longos – bem ao contrário dos contos curtos do meu último livro, Os anões. O outro será uma novela e se chamará Opisanie swiata, que quer dizer “descrição do mundo” e é como se traduz Il Milione, o livro de viagens de Marco Polo, para o polonês. É justamente como uma espécie de relato de viagens que essa novela deverá se constituir. A idéia é acompanhar o deslocamento do protagonista, Opalka, um cinqüentão, desde a Polônia até a floresta amazônica. Em sua terra natal, ele recebe uma carta por meio da qual descobre que tem um filho em Manaus e que este está muito doente. Daí a necessidade de voltar à Amazônia. Foi com o projeto para este livro que fui contemplada no Programa Petrobras Cultural deste ano.

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Vale morto recente? Se sim, Roberto Bolaño.

*ilustração: Nathalia Lippo.

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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

CARLOS DE BRITO E MELLO


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Não consigo me lembrar com clareza do meu primeiro livro. Na infância, quando eu ainda não sabia ler, minha mãe lia para mim. Então, algumas obras que ela escolhia passaram a ser, à medida que eu aprendia a ler, as minhas obras de referência. A escola também foi decisiva nisso. Na lista das primeiras leituras estavam: Flicts, do Ziraldo; a saga do Picapau Amarelo, do Monteiro Lobato (na escola, sobretudo, onde o estudo da obra foi empregado com muita sensibilidade no próprio processo de alfabetização); e O pequeno Nicolau, de Sempé e Goscinny (que era uma leitura da minha mãe). Acho que esse primeiro contato com a leitura foi marcantemente amoroso para mim e, com isso, estabeleceu uma relação entre a experiência da palavra e a experiência afetiva que, hoje, percebo em meu trabalho. Mais tarde, na pré-adolescência, tive contato com outra obra incrível: O gênio do crime, de João Carlos Marinho. Daí vieram, do mesmo autor, Sangue Fresco, Caneco de Prata e mais..., vinculando, de maneira decisiva para mim, narrativa e aventura.

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritor?
Eu tenho outras atividades além da literária: sou professor universitário, tenho diploma de jornalista, desenvolvo atividades relacionadas às artes plásticas (sobretudo com pintura e desenho) e faço formação psicanalítica. Nada disso se opõe à escrita, nada disso a neutraliza – embora haja sempre uma disputa pelo tempo. Acho que, por um lado, ser escritor é uma construção difícil, improvável, sem certificação, sem diploma, sem comprovação de endereço. Então, ser escritor significa ser também algo que carece de materialidade, de objetividade, de certeza. É uma estranha forma, digamos... de não ser. Por outro lado, acho que, depois de ter me dado conta desse desejo, do desejo de escrever, se eu não escrevesse, ainda assim seria um escritor, um escritor sem obra talvez... (risos). Depois que você aceita a escrita, como se aceita algum tipo de maldição, não tem retorno. Ainda que você não escreva, vai continuar amaldiçoado.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
Acho que é sempre possível contar outras histórias, não necessariamente novas. Os enredos de Rei Lear e Hamlet, por exemplo, já existiam antes que Shakespeare os transformasse em obras-primas. Talvez porque a questão resida mesmo na produção de um modo singular para a palavra, e esse modo é formulado na tensão do espírito com o seu tempo. Não há como prevê-lo. A própria noção de quem somos configura-se como uma pequena e ordinária narrativa que nos localiza no mundo. A literatura tanto pode atuar tanto nesse processo de localização quanto de retirada: aí o mundo não se torna nem melhor nem pior; torna-se apenas um outro mundo que foi aberto pela palavra.

No que você está trabalhando agora?
Estou trabalhando no próximo romance. O projeto foi selecionado pela Bolsa Funarte de Literatura, então, devo ter seis meses para realizá-lo. Estou enfrentando aquelas jornadas longas de trabalho em que passo mais tempo tateando do que compreendendo. Prefiro reservar minhas manhãs para isso, para que a escrita não seja muito afetada pelo resto do dia.

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Dentre tantos, vou citar três potentes referências para mim: Bernardo Carvalho, Luiz Ruffato e Lourenço Mutarelli.

*ilustração: Nathalia Lippo.

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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

ROMANCE DE HARUKI MURAKAMI INSPIROU REVISTA CHINESA

A edição de Agosto da revista Men's Health China tem um editoral de fotos inspiradas no romance "1Q84", de Haruki Murakami. Algumas imagens podem ser vistas aqui. As informações foram retiradas do blog chinês Danwei (via Galleycat). Há uma nítida inspiração na linguagem do cinema, dos quadrinhos, sem dizer a cara fashion pop. Afinal, trata-se de uma livre inspiração no romance.

O nome do romance tem uma clara referência ao clássico "1984", de George Orwell. Porém, o escritor japonês disse em entrevista que seu romance é diferente porque olha para o passado.

Para quem não se lembra, os dois primeiros volumes de "1Q84" foram um sucesso antes mesmo do lançamento. Parece que no Japão o livro já vendeu mais de 2 milhões de exemplares, encabeçando a lista dos livros mais vendidos do país em 2009. O terceiro volume foi lançado esse ano. Não encontrei notícia sobre a previsão de lançamento desse romance com seus três volumes em português.

Por aqui, a editora Alfaguara está lançando esse ano outro livro de Murakami, "Do Que Eu Falo Quando Falo De Corrida" - uma espécie de ensaio em que o escritor fala sobre a prática da corrida em sua vida.

*imagem: reprodução do blog Danwei.


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terça-feira, 14 de setembro de 2010

DANIEL GALERA

Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Difícil responder isso sem definir o que é impacto, mas pra não fugir da pergunta eu diria que os contos do Edgar Allan Poe foram impactantes pra mim, quando os li na adolescência. A força daqueles mundos fantásticos e assustadores me marcou muito.

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritor?
Centenas de vezes. A última foi ontem.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
É possível criar novas histórias e há novas formas de contar as mesmas histórias. E mesmo que não houvesse, a literatura seguiria relevante, porque a experiência de uma mesma história precisa ser repetida e renovada ao longo do tempo.

No que você está trabalhando agora?
Num novo romance.

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Não sei a idade de quase nenhum escritor que aprecio, portanto vou escolher alguns claramente idosos, pra não correr o risco de falhar no critério: Cormac McCarthy, Philip Roth, Sérgio Sant'Anna, Javier Marías.

*ilustração: Nathalia Lippo.

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ANDRÉ LAURENTINO


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Não lembro exatamente qual foi o primeiríssimo. Mas lembro de alguns que, por motivos diversos, marcaram. Ed Mort e outras histórias, lido na sexta série do Colégio de São Bento. Indicação de um amigo, Edvaldo. Até ali eu nunca tinha imaginado que livros pudessem ser engraçados. Lembro de interromper a leitura para gargalhar. Luis Fernando Verissimo é um grande formador de leitores. Este aqui, por exemplo. O fator humano, de Graham Greene. Pelo lado oposto. Trouxe um tema sério, analisado num curso de inglês, em Olinda, que marcou minha relação com os livros. A Penguin e a literatura inglesa foram portas importantes para mim. O padre irlandês Frank Murphy, que ministrava o curso, fez uma análise detalhada da história deste romance Graham Greene é até hoje um dos meus favoritos. Bliss and other stories, da neozelandesa Katherine Mansfield. Delicadeza, fluxo de consciência, epifania, monólogo interior, contos aparentemente sem grandes reviravoltas nos enredos. Li tudo dela depois. E Gilvan Lemos. Um pernambucano pouco divulgado, mas de grande valor. Li no colégio, para formação, seu O anjo do quarto dia. Fiquei tão encantado com um personagem (intelectual de interior, que escrevia artigos para lá de empolados - muito divertido) que passei a escrever artigos para mim mesmo com o mesmo estilo, só para continuar me divertindo com aquilo depois que o livro acabou.

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritor?
Claro que sim. Claro que não.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
Todas as histórias não foram contadas. Mas todos os temas já foram abordados. Mas isso não é má notícia ou problema. Um poema de amor não invalida todos os outros que ainda estão por vir ou que já foram. E há novas formas de contar histórias. Independentemente da mídia que se escolhe. Há maneiras mais tradicionais (com começo, meio e fim bem definidos) e outras mais variadas (final inconclusivo, experiências no limite da estrutura, contar de trás para frente, etc). Às vezes a maneira de se contar uma história vale mais, prende mais, do que a própria história em si. Por exemplo, há pessoas que contam uma ida banal ao supermercado de um modo que você morre de rir e todo mundo pára no cafezinho da firma para ouvir. E há pessoas que contam a morte do pai, por exemplo, de um modo tão chato que ninguém suporta ouvir. Saber contar uma história exige um tipo específico de talento.

No que você está trabalhando agora?
Se eu contar, a mágica evapora. Pode parecer dessas superstições bobas, mas que las hay las hay.

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Já dei pistas na primeira resposta. Mas aqui vão mais alguns. Não em ordem de preferência: Graham Greene, Katherine Mansfield, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Philip Roth, Milton Hatoum, Jorge Amado, Guimarães Rosa, Antonio Maria, Rubem Braga e Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro. De poesia (tenho que colocar os poetas aqui): João Cabral, Manuel Bandeira, Ferreira Gullar, Fernando Pessoa.

*ilustração: Nathalia Lippo.

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domingo, 12 de setembro de 2010

A GRAPHIC NOVEL DE WILLIAM BURROUGHS

Ah Pook is here, uma graphic novel escrita pelo beatnick William Burroughs e ilustrada por Malcolm McNeil será publicada em 2011. O anúncio foi feito pela editora americana Fantagraphics Books - editora que já publicou Robert Crumb, Charles Schulz, Joe Sacco e Daniel Clowes.

Segundo a editora, as primeiras tirinhas foram criadas por Burroughs e McNeil nos anos 70 e publicadas numa revista chamada Cyclops com o título de The Unspeakable Mr. Hart - algo como, 'O indescritível Sr. Hart'. Mais tarde, os dois decidiram ampliar a ideia e criar o que eles chamaram de um "romance de palavra e imagem" (o termo graphic novel ainda não tinha sido criado). O livro não foi aceito por nenhum editor da época e tanto Burroughs quanto McNeil decidiram abandonar o projeto.

Ainda segundo a Fantagraphics, Ah Pook is here fala sobre
"(...) um magnata chamado John Stanley Hart, dono de um jornal bilionário obcecado em descobrir alguma maneira de alcançar a imortalidade. Com base em fórmulas contidas em livros maias que foram redescobertos, ele tenta criar um máquina de controle midiático usando as imagens de medo e morte. Ao aumentar o controle, porém, ele desvaloriza o tempo e invoca um inimigo implacável: Ah Pook, o deus da morte Maia. Jovens heróis mutantes usando a mesma fórmula Maia de viagens através do tempo trazem pragas biológicas do passado remoto para destruir Hart e sua realidade temporal judaico-cristã" (tradução minha).
Pelas primeiras imagens que a editora liberou, dá para perceber que a graphic novel tem todos aqueles elementos perturbadores que povoam a obra de Burroughs. Quase 40 anos depois parece mesmo um trabalho visionário criado pelos dois parceiros. O mais interessante também é que o anúncio foi feita na mesma semana em que o Uivo, de Allen Ginsberg está ganhando uma versão em filme e em graphic novel.

Os beats vão estar na moda novamente, logo mais.

*imagens: reprodução da Fantagraphics.com

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sábado, 11 de setembro de 2010

OS SUPLEMENTOS LITERÁRIOS: JORNAL x INTERNET


Não é à toa que essa notícia do Wall Street Journal lançar um suplemento sobre livros vem sendo saudada com entusiasmo. É um fato que nos Estados Unidos a crítica literária deixou de ser assunto dos jornais impressos e migrou para a internet. Sendo assim, a iniciativa do jornal brilha em meio a escuridão e as incertezas sobre o futuro que se aproxima.

Afinal, me diga quem de nós não ficaria contente em ter um suplemento literário desses na mão? Só o tempo poderá dizer se a decisão foi certa ou errada.

Aqui no Brasil, o Sabático e o Prosa & Verso são os único suplementos que temos desse tipo no meio impresso - o primeiro é do Estadão e o segundo do Globo. A Folha de SP por meio da Ilustrada e Ilustríssima também comenta bastante sobre livros, mas não tem um suplemento específico. Das revistas apenas as mensais Bravo! e Cult dedicam páginas ao assunto livros. As semanais Época e Veja falam muito pouco. A Piauí em algumas edições também trata do assunto.

Porém, tanto no Brasil, quanto nos Estados Unidos e no restante do mundo, é na internet que está o terreno fértil para a cobertura de notícias sobre livros e mercado editorial. A quantidade de blogs, revistas e fanzines online é imensa - muito mais nos Estados Unidos do que por aqui. Isso sem mencionar a velocidade com que as informações circulam nesses meios. Qualquer um que quer saber sobre literatura, sem dúvida, recorre a internet.

Como bem apontou Sérgio Rodrigues há uma "floresta de interrogações" quando o assunto é suplemento literário impresso: "Precisaremos mesmo deles no ambiente de descentralização da crítica e da informação que vem sendo construído pela blogosfera? Seria essa descentralização um retrocesso ao nível da conversa de botequim? Ou uma libertação do jugo de autoridades críticas autoproclamadas, mas pouco representativas?".

O editor da Paris Review, Lorin Stein, comentou num artigo que parte do arquivo da revista estará na internet. Outras renomadas revistas literárias também estão disponibilizando seu acervo na rede.

Acho que por enquanto nessa disputa a internet definitivamente está com o placar na frente.

*imagem: reprodução do Google.

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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

LÍVIA SGANZERLA JAPPE


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Há um livro que me acompanha há muito tempo e que sempre me mobiliza de um modo especial: "Um Copo de Cólera". A escrita de Raduan Nassar é primorosa e nada tem a ver com modismos. É sublime o modo como ele faz as palavras se abrirem, depurando o sentido genuíno de cada uma delas. A relação que se estabelece entre um leitor e um livro é muito pessoal e sempre inesperada, de modo que muitos livros dialogaram comigo em instâncias profundas. Cresci lendo os clássicos, gosto muito dos russos e dos japoneses, mas o que verdadeiramente me interessa é Literatura genuína, portentosa, que não se mede pela construção inofensiva.

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritora?
Muito mais importante do que escrever é ler. Sou uma leitora apaixonada desde a infância e este amor pelas palavras e pelas histórias vem comigo desde sempre. Escrevinho desde criança, mas nunca tive a pretensão de monitorar o que poderia vir a ser a condição de escritora porque minha relação com as palavras é de boniteza. Implica amor. Eu apenas me curvo à necessidade visceral de estar entre as palavras porque me movo na essência do imaginário.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
Acho uma enorme pretensão de minha parte afirmar que todas as histórias já foram escritas. Demócrito dizia que há uma infinidade de mundos, entre os quais alguns são não apenas parecidos, mas perfeitamente iguais. O mesmo vale para as histórias: o imaginário é um espaço mágico, riquíssimo, e a mesma história é infinita, variável de acordo com a imaginação de quem a tece. Hoje, como em qualquer tempo, há Literatura de boa e de má qualidade. Me parece que, atualmente, estabeleceu-se um certo modo de se "escrever à moderna", com o predomínio de uma técnica que não admite conciliação entre a artesania da linguagem e um senso crítico aguçado. Uma boa história, para mim, aproxima-se do gênio simples e perturbador, do ponto de vista da reflexão, de Tolstoi. Admiro muitíssimo os paradoxos nas histórias tolstoianas, nas quais os conflitos são expostos, mas não nos são dadas soluções perfeitas para resolvê-los. Gosto do que não se quer pretender perfeito. O importante é que haja inteireza.

No que você está trabalhando agora?
Creio que literatura não se faz no tempo do relógio, mas no tempo das costuras. Tenho uma relação respeitosa com as palavras, de modo que, quando se quiserem dizer, virão à tona, e eu lhes darei passagem. Nós, os "modernos", não temos mais a confiança na elaboração das coisas silenciosas, na presença muda das coisas, mas eu creio nelas, eu creio no aprendizado e no amadurecimento, e minha artesania é toda ela à moda antiga.
Por ora, vou publicar, na companhia do impecável gênio de Odilon Moraes, ilustrador paulista, um conto na revista "BRAVO!", e, em alguns dias, parto para o Reino Unido, onde farei Mestrado em Política Internacional. Creio que um período entre os livros, para estudar, e observar as coisas do mundo, enriquecerá a alma e minha relação com as palavras. Há muito para eu aprender, é longa a jornada em busca das coisas simples. São as coisas simples que nos levam às coisas mágicas.

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Tolstoi é absoluto em sua capacidade de colocar minha alma em estado de perturbação. Aprendo, também, intimamente lições preciosas com Marguerite Duras e Gaston Bachelard, e saio encharcada da difícil missão humana de conviver com as luzes e as sombras da psique. Raduan Nassar, Lygia Fagundes Telles, Milton Hatoum, Fernando Pessoa e Clarice Lispector me acompanham há anos, e, com eles, cada vez mais, entendo que o tempo das palavras é irmão do naufrágio da instrospecção. Nenhuma mágica se mostra tão poderosa quanto um bom livro.

*ilustração: Nathália Lippo.
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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

ESTEVÃO AZEVEDO


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Sendo injusto com muitos outros livros, eu destacaria dois. O primeiro é dos poucos que li quando era muito pequeno e de que me lembro até hoje: "Marcelo, marmelo, martelo", da Ruth Rocha. Nele, um garoto que não se conforma com os nomes das coisas decide inventar outros que considera melhores, normalmente relacionados ao uso. É curioso que (claro que só dá para pensar nisso hoje, na época era só uma história divertida) a autora trate de algo que tem muito a ver com o ofício da literatura, não? Renomear tudo que há é uma forma de criar ficção.

O segundo livro marcante é um épico que li por volta dos dez, onze anos: "Xogum". É um best-seller dos anos 70, que conta a chegada dos primeiros jesuítas ao Japão feudal. Nunca mais voltei ao livro, então não sei se ele ainda se sustenta na estante - o que é, aliás, um bom motivo para não voltar jamais: manter intacta a nostalgia. O fato é que naquela época era impossível largar a aventura do capitão inglês que ascende na rígida hierarquia dos samurais e conhece a cultura tradicional japonesa, enquanto se envolve na luta pelo poder. Que alegria o livro ter centenas e centenas de páginas e preencher muitas tardes tediosas.

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritor?
Até publicar o primeiro livro, eu nunca havia considerado a hipótese de ser escritor, apenas escrevia bastante sem pensar no que faria com tudo aquilo. Depois, a dúvida mudou de aspecto. Passou a ter a ver com a dificuldade de definir o que é exatamente ser escritor. Se, por ter escrito e publicado dois livros, eu tiver ganho a alcunha, independentemente do que eu venha a fazer daqui por diante, aí a questão está resolvida: sou escritor e ponto. Mas não me sinto confortável com a ideia. Quando fico um período longo sem escrever ficção, aceito com mais dificuldade a denominação, e aí considero a hipótese de ter deixado de ser escritor. Como a gestação de um livro normalmente é bem longa, no meu caso, não é raro esse conflito me assombrar. O bom é que, como escrever é das poucas coisas que considero saber fazer minimamente bem (com exceção de não fazer nada, no que sou um mestre), essa angústia acaba por me obrigar a lutar com aindisciplina e seguir produzindo.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
Sempre será possível contar novas histórias. Isso porque na literatura (ou em qualquer outra arte que se serve da narrativa) o importante é de que forma se conta o que se conta. Então o número de combinações se torna infinito. Com o mesmo material, com exatamente a mesma trama, o mesmo mote, os mesmos personagens, artistas diferentes fazem histórias absolutamente novas. Há inúmeros exemplos disso. A história de Fedra foi contada no teatro por Euripides, Sêneca e Racine, cada um a seu modo. Além disso, mudam os tempos, novas histórias aparecem, novas formas são inventadas. A tecnologia, por exemplo, alimenta as maneiras de contar histórias. O cinema é uma forma de contar histórias que tem pouco mais de 100 anos. A internet fornece novas formas. E assim por diante.

No que você está trabalhando agora?
Além do meu trabalho regular como editor, estou escrevendo um romance.

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Vou citar os que me vêm a memória agora e que considero bons, sem pensar muito em se são os favoritos. Dos brasileiros, gosto muito do trabalho do Rodrigo Lacerda, do Alberto Mussa, do Reinaldo Moraes, do Luiz Ruffato. Dos estrangeiros, gosto do Phillip Roth, do Lobo Antunes, do Vila-Matas. Agora, favorito mesmo, o que mais li, já está morto: é o Jorge Luis Borges.

*ilustração: Nathalia Lippo.

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COM LICENÇA POÉTICA, UM UIVO PARA ALLEN GINSBERG


Por que não falar sobre Uivo, de Allen Ginsberg? Afinal, comentei essa semana Lolita e Madame Bovary, outros livros também escandalosos e polêmicos. Portanto, quero pedir um minuto de licença a prosa de ficção. Se bem que Uivo é um poema que tem ares narrativos. Mas quero falar desse poema por algumas razões.

Primeiro, Uivo é um dos meus poemas favoritos e fez a minha cabeça durante muito tempo quando eu era adolescente. Não que eu tivesse a pretensão de fazer poemas. Me fascinava, como me fascina até hoje, a força das imagens que Allen Ginsberg escolheu para compor o painel da América que não aparecia no cinema e no jornal daquele tempo. Sem falar na sintaxe recriada e naqueles longos versos, tão longos que quase nem cabem nas páginas do livro. Para mim Uivo representava uma espécie de síntese da liberdade na poesia. Assim como Walt Whitman tinha feito muitos anos antes em Folhas na relva. Reza a lenda Uivo é uma tentativa de Allen Ginsberg de achar a sua propria voz e se libertar da influência que William Blake exerceu sobre ele. Entre tantas coisas, é um poema sobre liberdade mesmo.

Segundo, nas próximas semanas vai estrear nos Estados Unidos um filme sobre esse poema. O filme vai se chamar "Howl" e será estrelado por James Franco no papel de Allen Ginsberg. O enredo é baseado na vida do poeta beatnick durante o período em que ele estava escrevendo esse poema e buscando por liberdade artística e pessoal. Depois da publicação, Ginsberg acabou enfrentando os tribunais de São Francisco, nos Estados Unidos, pois Uivo foi considerado uma obra obscena e tudo o mais. A direção do filme ficou a cargo de Rob Epstein e Jeffrey Friedman - com direito a produção executiva de Gus Van Sant. James Franco ficou bem parecido com Ginsberg. O trailer de "Howl" já está circulando na internet.

Terceiro, Eric Drooker, cartunista, ilustrador e integrante da equipe técnica do filme vai publicar "Howl: a graphic novel". Trata-se da transposição do poema em uma grafic novel. Drooker conheceu e foi amigo pessoal de Allen Ginsberg. Os dois chegaram a trabalhar juntos num livro chamado "Illuminated poems". Além disso, Drooker é um conhecido ilustrador de capas da revista New Yorker.

Quarto, motivado pelo lançamento do filme uma série de publicações estão tomando conta das livrarias americanas. Uma delas é particularmente interessante: Jack Kerouac and Allen Ginsberg: the letters. Tem até um texto de Edmund White para a New York Review of Books sobre uma exposição de fotos de Allen Ginsberg.

Por último, aqui no Brasil, Cláudio Willer, que traduziu diversas obras beatnicks para o português, está ministrando um curso sobre a geração Beat.
*imagens: divulgação.

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terça-feira, 7 de setembro de 2010

MICHEL LAUB


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Não lembro do primeiro, exatamente (talvez a história do Patinho Feio). A primeira leitura de impacto que tive foram os gibis de terror da editora Vecchi (Pesadelo, Spektro, Sobrenatural).

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritor?
Só pensei em ser escritor depois dos 20 (acho que foi aos 22, especificamente). Quando criança eu sonhava em ser músico/astro pop.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
Os temas já foram todos tratados (nem são muitos, na verdade). Mas histórias são inesgotáveis, porque dependem muito mais de como se conta do que daquilo que se conta. Nesse sentido, uma é sempre diferente da outra.

No que você está trabalhando agora?
Um romance.

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Dos vivos, J.M.Coetzee e Philip Roth (ambos pela obra como um todo). Tem outros de que gosto igualmente, só que por causa de um livro específico.

*Ilustração: Nathalia Lippo.

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EDUARDO BASZCZYN


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Quando procuro na memória o que me trouxe o hábito da leitura, não encontro apenas um livro, mas uma coleção: a série Vaga-Lume, lançada pela Editora Ática nos anos 80. Foram as histórias de autores como Marcos Rey, Marçal Aquino e Luiz Puntel que povoaram minha imaginação e me fizeram companhia por muitas tardes da infância, despertando um vício alimentado até hoje. Mas os livros que mais me impactaram, os que me provocaram ao mesmo tempo angústia e fascínio, foram lidos na adolescência. No difícil exercício de escolher apenas um, destaco "Os Dragões Não Conhecem o Paraíso", de Caio Fernando Abreu. Nele estavam toda a melancolia e a solidão que marcam fases da juventude, em uma linguagem poética, sensível e ao mesmo tempo esquizofrênica. Foram os personagens frágeis e seus amores imperfeitos que me fizeram descobrir logo cedo a instabilidade do mundo e das relações. Não tenho dúvidas de que o efeito provocado por esse, e por todos os outros livros do autor devorados a partir dali, foi decisivo para que eu optasse também pela escrita anos depois.

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritor?
Na realidade, nunca pensei em ser escritor - pelo menos de forma racional. Não acreditava que a atividade pudesse ser uma profissão como as tradicionais, e escolhi o Jornalismo como o caminho mais prático e seguro para garantir a sobrevivência fazendo algo mais próximo do que eu realmente gostaria de fazer. Mas ter trabalhado em redações e como repórter por mais de dez anos me ensinou, na verdade, como não escrever ficção. São atividades distantes e até contrárias, eu diria. Mas a Literatura sempre esteve por perto, me provocando como as piores tentações, e fazendo com que eu me rendesse. Quando percebi que escrever era uma necessidade, algo essencial para a minha vida, e que aquilo que eu produzia não deveria ficar apenas no escuro das gavetas, decidi me dedicar ao primeiro romance. Desamores foi lançado em 2007 pela Editora 7Letras (e está esgotado atualmente). Escrever o livro de estreia foi descobrir um outro vício além da leitura. Este, bem mais perigoso e sem tratamento. Nada me atrai mais hoje em dia do que a ideia de criar. De trazer ao mundo algo que antes não existia.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
Há muitas histórias para ser contadas. O que não há são sentimentos inéditos. Todos os que existem e conhecemos já serviram de ingredientes para os livros. Todas as vidas são feitas dos mesmos e imagino que não exista uma única sensação que já não tenha sido descrita ou vivenciada pelos milhares de personagens criados por autores até hoje. Mas cada pessoa enxerga o mundo de uma maneira, e um mesmo episódio ou acontecimento pode ser interpretado de infinitas formas. Há muitos dramas e temas subjetivos a ser explorados ainda. O grande desafio do escritor é criar uma voz própria e segui-la no meio da gritaria.

No que você está trabalhando agora?
Depois da publicação de Desamores, em 2007, me dediquei por um ano e meio ao Núcleo de Dramaturgia do Sesi/British Council, um projeto de formação de novos dramaturgos. Com isso, a ideia e as anotações para o segundo livro ficaram temporariamente guardadas. As atividades com o núcleo resultaram no meu primeiro texto para o teatro, com os direitos para possível montagem cedidos ao Sesi. Em abril deste ano, comecei a escrever o segundo romance. E é nele que trabalho atualmente.

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Listas de preferidos nunca são definitivas, sempre mudam; mas atualmente meus favoritos, com mais de 40 são: Ian McEwan, Michael Cunningham, Jonathan Coe, Lionel Shriver, Herta Müller e Philip Roth.

*Ilustração: Nathalia Lippo.

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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

LOLITA, DE VLADIMIR NABOKOV - CAPAS

Vladimir Nabokov levou muito tempo escrevendo seu romance mais conhecido - Lolita. Depois de pronto, ele ainda teve de esperar dois anos até que finalmente conseguiu publicá-lo. O romance saiu primeiro na França pela Olympia Press, uma pequena editora famosa por publicar livros polêmicos. A publicação nos Estados Unidos só aconteceu em 1958 depois que Graham Greene concedeu uma entrevista elogiando bastante o livro. Segundo consta, Lolita vendeu 100 mil exemplares nas primeiras três semanas de lançamento.

Uma série de problemas tiveram origem com esse sucesso repentino. O romance foi caçado e retirado de circulação em alguns países. Muitos viram no livro indícios comunistas - basta lembrar que nesse período o mundo vivia a Guerra Fria e Nabokov é de origem russa. Outros acharam que o livro atacava a moral e os bons costumes das famílias tradicionais. Isso sem mencionar os que tentavam achar correspondências entre a vida do autor e a obra.

Tamanho escândalo somente com Madame Bovary, de Flaubert ou com As flores do mal, de Baudelaire. Talvez alguns romances do beatnicks. Mas mundialmente falando, acho difícil superarem o caso de Lolita.

Para surpresa geral, encontrei uma resenha brilhante sobre Lolita. Foi escrita pelo crítico Wilson Martins para o antigo Suplemento Literário, do Estadão. Também localizei um site que organizou as capas das diversas edições de Lolita publicadas pelo mundo inteiro. Faltou apenas a capa da edição lançada pela coleção Biblioteca da Folha, em 2003 - por isso coloquei a capa no post.

*imagem: divulgação.

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domingo, 5 de setembro de 2010

LIMA BARRETO RENOVADO


O caderno Ilustríssima, da Folha de SP, trouxe textos caprichados sobre do escritor Lima Barreto. Dois novos lançamentos devem colocar o nome do autor de "O triste fim de Policarpo Quaresma" em evidência novamente.

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Yudith Rosenbaum fala sobre "Diário do hospício e O cemitério dos vivos" que será lançado pela editora Cosac Naify. O livro foi organizado por Augusto Massi e Murilo Marcondes de Moura. A edição ainda conta com prefácio assinado por Alfredo Bosi e um apêndice incluindo textos de Machado de Assis, Olavo Bilac e Raul Pompeia sobre hospícios.

"Diário de um hospício..." é o diário pessoal que Lima Barreto manteve durante sua internação no Hospital Nacional dos Alienados, Rio de Janeiro, entre 1919 e 1920. Já em "... Cemitério dos vivos", Lima Barreto pretendia transformar sua experiência de loucura em ficção. O livro ficou inacabado.

O blog da Cosac Naify tem um post sobre os bastidores da produção desse livro - "Direto do forno", assinado por Lilia Goes, produtora gráfica da editora.

A Folha disponibilizou "A minha bebedeira e a minha loucura", terceiro capítulo do livro.

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Nicolau Sevcenko conta um pouco da história de Lima Barreto e fala sobre a publicação de "Contos completos de Lima Barreto". O livro será lançado pela editora Companhia das Letras em outubro e conta com organização e apresentação de Lilia Moritz Schwarcz.

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Por fim, o caderno publicou o conto "Apologética do feio" que irá integrar a coletânea de "Contos completos...". Todos esses textos estão disponíveis apenas para assinantes do jornal ou do portal UOL.

*imagem: reprodução da Wikipédia.

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sábado, 4 de setembro de 2010

EMMA BOVARY NA PLAYBOY?

Enquanto a edição brasileira da revista Playboy tem Larissa Riquelme em ensaio 3D, a edição americana tem um trecho da nova tradução de Madame Bovary, obra-prima de Gustave Flaubert. A capa da edição ainda diz assim: "O romance mais escandaloso de todos os tempos". Mas o que teria levado Madame Bovary a ganhar a capa de uma revista como a Playboy?

A razão é bem simples: a editora Viking Press vai lançar em Setembro uma nova tradução desse romance feita por Lydia Davis. Como já comentei, Davis é uma das escritoras mais badaladas do momento nos Estados Unidos. Seu trabalho como tradutora de escritores franceses também tem sido bastante elogiado. A tradução que ela fez de O caminho de Swan, de Marcel Proust foi inclusive premiada.

O tema desse romance de Flaubert é o adultério cometido por uma mulher entediada com sua vida burguesa numa pequena cidade da França. O que a Playboy americana quer fazer é tornar a personagem Emma Bovary, uma figura polêmica. Há um post engraçado no blog do Book Bench da revista New Yorker sobre essa jogada da Playboy. Também há um trecho do capítulo 8 do livro, com a tradução de Davis e introdução de Antonya Nelson, na Tim House Magazine.

Apesar de não parecer a edição americana da revista Playboy sempre investiu em literatura - de uma maneira tímida para dizer a verdade, mas convenhamos que literatura não é o foco principal da revista. A edição brasileira, e mesmo outras edições internacionais, também já deram algum destaque a novos escritores publicando entrevistas, contos inéditos, poemas ou trechos de livros em vias de publicação.

*imagem: reprodução da capa do livro a partir do site da Viking Press.

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sexta-feira, 3 de setembro de 2010

TIAGO NOVAES


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Foi Viagem ao Centro da Terra, de Julio Verne. Eu tinha sete anos, e passei um bom tempo neste processo, explorando as ilustrações com uma imaginação e um entusiasmo incontidos, e tentando decifrar um universo de diálogos e ideias complicados para a minha imaturidade, mas cujo poder já antevia.

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritor?
Em alguns momentos, durante a faculdade de Psicologia, eu me esquecia de que era um escritor. Foi o único período, pois estava muito ocupado com outras coisas. Tornar-me escritor não foi particularmente uma decisão, contudo. É uma condição que atravessa os acontecimentos da vida, e é claro que se deixa afetar pelas experiências, mas que persiste, quando nada mais persiste. Mas o bom de ser um escritor é que se pode fazer o que quiser, também: eu posso fazer cinema, posso ser psicanalista, posso viajar, dar aulas de filosofia. Deste modo, é uma condição de grande liberdade.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
Há muitas outras formas de contar histórias que ainda não foram exploradas, e há muitas outras formas de ouvir histórias. O século XX transformou nosso modo de ouvir e de contar histórias, e transformou também a própria essência do que seja uma história. Se assistimos hoje a um predomínio da simplificação das narrativas, que se voltam para uma linguagem publicitária, jornalística e cinematográfica, isto se dá em parte pela massificação, e em parte porque a literatura clássica (estou me referindo à literatura impressa, os romances, os contos, a poesia) perdeu grande parte de sua influência e de seu protagonismo. Mas ela, em relação aos outros gêneros, só vem se ampliando.

No que você está trabalhando agora?
Estou escrevendo um romance, intitulado “Documentário”, agora com o auxílio da Bolsa Funarte de criação literária, cujo resultado saiu há pouco mais de dez dias. É um livro que venho trabalhando há dois, três anos, desde pouco após a publicação de “Estado Vegetativo”.

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Imagino que esteja perguntando dos vivos. Roberto Bolaño e Montalbán ainda estão bem vivos para mim. Juliano Garcia Pessanha, Enrique Vila-Matas, Moacyr Scliar (em Doutor Miragem). Lourenço Mutarelli (nos quadrinhos e em Jesus Kid), Paul Auster, J. M. Coetzee e Haruki Murakami.

*Ilustração: Nathalia Lippo.

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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

MAURÍCIO DE ALMEIDA


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Não me lembro exatamente qual foi o primeiro livro que li, mas lembro de ficar às voltas no colégio com os livros do Pedro Bandeira, principalmente “A droga da obediência”. Nessa época eu não era muito dado a leituras, devo dizer. Só mais tarde, quando comecei a me interessar por literatura, tive o primeiro livro que me marcou: “Água Viva”, da Clarice Lispector. Ler Clarice é sempre uma experiência, mas a primeira leitura que fiz desse livro foi realmente impactante, pois estava escrito ali não o que eu sentia, mas como me sentia, isto é, numa busca que margeia um sentimento sem nunca alcançá-lo ou defini-lo.

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritor?
É um pensamento que me assalta com alguma freqüência. Não raro passo por algumas crises de fé nas quais não consigo escrever sequer meu nome num pedaço de papel. Nesses momentos questiono a idéia de escrever histórias, mas logo me vem uma palavra, uma frase ou uma idéia qualquer, começo a rascunhar uma situação, um personagem, e lá estou eu escrevendo novamente. Não creio que seja uma designação divina, mas meu modo de me relacionar com as coisas.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
Penso que tanto histórias como a forma de contá-las estão localizadas e em relação direta com seus contextos sócio-históricos, e estes estão em constante transformação. Ou seja, muito embora existam certas matrizes de histórias (um exemplo seria “Romeu e Julieta” como matriz de uma história de amor), acredito que há novas histórias e principalmente novas formas de contá-las. Aliás, penso que decorre disso o frescor da literatura quando temos um bom livro nas mãos.

No que você está trabalhando agora?
Estou trabalhando num romance que aos poucos vai ganhando corpo. Esse livro já teve inúmeros projetos, formas, personagens e afins, mas penso ter encontrado a forma e tom que estava procurando. Além disso, tenho trabalhado em alguns contos que acabam publicados aqui e ali (o último publicado foi ‘Sagrado Coração’, que está no livro “Como se não houvesse amanhã”, uma antologia de contos escritos a partir das músicas da Legião Urbana organizada pelo escritor Henrique Rodrigues).

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Essa pergunta sempre tem inúmeras respostas, pois depende muito do que estou lendo no momento. Ultimamente tenho lido bastante poesia e, dentre eles, um dos meus favoritos é o Roberto Piva. Outro é o Ferreira Gullar do “Poema Sujo”.

*Ilustração: Nathalia Lippo.

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MAIS OBSERVAÇÕES SOBRE O CONTAR


O crítico Sérgio Rodrigues do blog Todoprosa escreveu um post interessante essa semana sobre a questão da trama nas nossas narrativas comtemporâneas - o post se chama "O gosto de contar". Gostaria de repercutir o post que ele escreveu e ampliar o problema comentando mais alguns pontos que julgo interessantes.

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Realmente a trama, o enredo, a história ou o conteúdo é um ponto importante para que o leitor possa se sentir atraído pelo que está lendo. É por meio dela que ele vai experimentar a forma da narrativa e o exercício de linguagem de um determinado autor. Quando o conteúdo consegue se adequar a forma temos um encontro extraordinário e muito difícil de atingir. Lionel Shriver falou sobre essa questão numa entrevista recente ao programa Entrelinhas, da TV Cultura. Em muitos momentos é amargo mastigar e engolir "a fibra dura de exercícios de linguagem", como diz Sérgio. Mas nem sempre esse descaso com a trama é intencional por parte do autor. Tampouco é fruto de um ódio oculto que ele mantém em relação a literatura. Na verdade, penso eu, a morte da trama é parte de um processo histórico que vem ocorrendo desde o final do século XIX e ganhou força com as vanguardas artísticas no começo do século passado. Diante do impasse de sempre criar algo novo, o caminho encontrado por muitos escritores foi atacar a trama, denunciar a linguagem e o processo de feitura das narrativas literárias. A ideia era revelar a linguagem e matá-la - como apontou Roland Barthes, Michel Foucault, etc. Talvez a maior expressão desse processo tenha ganhado corpo justamente com os franceses do Nouveau Roman e da OuLiPo.

***

Não podemos esquecer que os romances, contos e fábulas estão inseridas no contexto histórico em que são produzidos - elas refletem sobre as questões de uma determinada sociedade e sobre um determinado tempo, no momento em que são escritos. Embora a gente leia com certa distância, não podemos considerar essas obras isoladas desse contexto.

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O leitor é uma figura importante, mas o processo narcisista de olhar para uma história e querer reconhecer apenas a si mesmo precisa ser balançado. O leitor precisa encarar o fato de que o livro que está lendo é árido porque naquele momento aquele experimento foi importante. O leitor também precisa tentar passar por alguns desafios que o texto impõe. Inclusive o de ser desvendado como linguagem.

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Vivemos um momento em que contar boas histórias é muito importante, porque os leitores estão mesmo atrás delas. A forma demasiado elaborada não interessa muito. Chego a pensar que os leitores tendem a comentar muito mais a história do que a forma de um livro, mesmo que esse livro consiga conciliar as duas coisas de maneira harmônica. Esses fatos provam que o experimento de linguagem, como proposto pelas vanguardas e como querem os defensores da forma, não triunfou. As vanguardas do começo do século passado ficaram datadas.

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Valorizar a trama também não significa que dizer ela deve ser altamente elaborada. Muitas histórias boas são frutos de tramas muito simples. "Mrs Dalloway", de Virgínia Wolf, por exemplo, é um romance sobre uma mulher que está preparando uma festa de aniversário. Os contos de Tchekhov também são sobre acontecimentos banais. Os contos escritos pelos autores modernos também estão cheio de outros exemplos. O autor não precisa ir em busca de "passar uma rasteira no leitor" e surpreendê-lo sempre. Muitas vezes importa mais a maneira como a trama é desenvolvida do que como ela vai se concluir. Talvez seja nesse momento que surja o privilégio da linguagem.

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Os exercícios de linguagem e os textos mais experimentais nascem do nosso desejo de criar o novo e encontrar novas formas de expressão. Isso é algo do nosso tempo moderno - ou pós-moderno, se preferirem. É um tipo de exercício que não pode simplesmente ser deixado de lado porque para a narrativa literária ele compõe uma dialética entre forma e conteúdo.

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Para concluir, penso que realmente esse gesto de contar histórias nunca vai acabar. Nem a fonte de onde elas brotam. Porque cada ser humano possuí tem uma experiência muito particular da vida. Cada um enxerga as coisas a sua maneira. É dessa riqueza, dessa diversidade que vem as histórias, as tramas, os enredos. As hitórias vão durar até que o último ser humano deixe de existir - "e depois disso, que diferença faz?", como disse Sérgio no post dele.

*imagem: reprodução do Google.

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